domingo, maio 28, 2006

saudades

ontem
escolheste a tua cara de olhos tristes
escolheste o teu sorriso afável, para nos brindar.

ontem
só tu para nos fazer rir assim
só tu para nos fazer viajar através da tua voz melódica.

ontem
entristeci-me pela distância que nos separa
entristeci-me pela proximidade da tua ausência.

ontem
recordarei na saudade que me deste daquele abraço

que te apeteceu, no dia em que nos conhecemos.

ontem
é já tempo de futuro que não terá regresso

é já tempo de saudades tuas.

simetria (uma ode à amizade)

deviam ser umas cinco da manhã, quando chegaste. nem sei porque vieste. eu não te esperava.
despes a tua camisola preta, lentamente, como se o tempo fosse para ti, infinito. observo os teus movimentos lentos, quase sedutores e perco todos os significados que inventei para as emoções e para os sentimentos.
ficas nua, à minha frente. eu só consigo sentir a perplexidade de não te conhecer. choras. porquê? é a pergunta que o meu corpo insinua. respondes com mais uma lágrima salgada e um olhar angustiado. choro por ti, por nós, não sei, dizes-me. também eu choro, com medo da solidão que se aproxima; depois pela distância que a tua nudez tenta desmentir.
agora eu…
agora dispo a minha roupa sem hesitar.
olhas-me atenta. o meu rosto índio encontra-se com o teu. os cabelos negros e compridos, as peles escuras… encontramos quase a simetria perfeita. todos os pontos dos nossos corpos coincidem, a face, os braços, as mãos, os dedos, o tronco, o sexo, as pernas, os pés, tudo.
dançamos ao som de uma música que não conheço. poderosa, demasiado brutal para ser ignorada. a sintonia parece acontecer. doem-me as pernas, e os braços, acho até que me dói a alma, mas não consigo parar, não consigo desistir do que ainda não conheço. procuro um livro, ao acaso – leio-te kafka, depois cervantes, stendhal, neruda, pessoa, auster…ficamos horas assim, submersas nas palavras.
depois tu…
abraças-me. nesse momento sou uma criança pequena órfã de amor. e tu sabes cativar-me. convenço-me de que ficarás comigo. é nisso que quero acreditar. dou-te a mão e a adormeço nesse calor de quem confia. a mão que me dás já não me fere como antigamente, devolve-me, antes, a consciência do eu que já não reconhecia em mim.

a exaustão dos dias deixa-me imóvel, como uma estátua. sem querer descubro aquela música que dançámos e que sei de cor. encontro-a no meio de milhares de pessoas que a cantam quase como se fosse um grito de guerra (e talvez seja mesmo o grito da guerra de cada um). por entre as vozes distingo a tua. vem de longe. talvez seja um eco dentro de mim, talvez sejas mesmo tu que estás por ali. recordo-me daquele dia. as imagens sucedem-se rápidas e impiedosas. alguém no palco se mexe, com gestos amplos e pacientes, como os teus naquele dia. choro. sorrio. sei que foi nas tuas lágrimas que um dia encontrei a minha casa.


onda sonora: tool (live in SBSR, 26maio2006) - stinkfist

domingo, maio 14, 2006

aniversário

no dia do meu aniversário,
o espelho quebrado ao fundo do corredor, ausente da magia antiga, mostrar-me-á a cara de menina que nunca me abandonou. a infância já perdida há tanto tempo não voltará mais.
no dia do meu aniversário,
é apenas mais óbvio que há poemas que têm razão - hoje apenas duro e somam-se-me dias. amanhã, terá passado mais um dia em me senti vazia de mim mesmo. mais um dia em procurei vestir uma pele que nunca me serviu - o vestido preto está cada vez mais gasto.
no dia do meu aniversário,
sei apenas que perdi um dia em que poderia ter vivido. nada mais aconteceu. e que diferença fez? a mim, nenhuma, aos outros, nenhuma também. nunca senti, não me senti nunca. nunca alcancei o que um dia sonhei. hoje os sonhos já não me assaltam e ao menos consigo respirar.
no dia do meu aniversário,
quero estar sozinha. quero perder assim sozinha. quero esperar pelo nada que sei que chegará em breve.
no dia do meu aniversário,
todos se vestiram de negro. para me sorrir (talvez para me dizerem adeus, quem sabe?).

permaneço de pé, de olhos fechados (talvez ainda procurando qualquer coisa que me resista), espero pelo meu próximo aniversário, a que provavelmente já não assistirei.

onda poética: aniversário - álvaro de campos

quarta-feira, maio 10, 2006

olhos

passas por nós sem nos ver. como se não existissemos. talvez não o devessemos fazer, nem sequer tentar.
as flores amarelas que se vêem através das grades da janela, da sala, são de uma beleza serena, que não dói, mas que também não faz sorrir, porque não têm amor suficiente dar.

onde é o teu refúgio? porque não choras? de que tens medo?

chamam-te. e permaneces imóvel (terás ouvido?), de olhos tristes. tão tristes. que doí por dentro, que queimam como ácido, que petrificam. que levam todos na tua tristeza. desarmados.

deixas-me sorrir e dar-te a mão?

domingo, maio 07, 2006

origens

o característico desenho de Keith Haring lembram-lhe sempre aquele bloco de capa roxa e o postal verde que ela lhe ofereceu nos anos. há tanto tempo. hoje voltou a lembrar-se. o envelope vermelho (seria laranja?) e um fundo branco com o traçado a preto fê-la parar uns momentos antes de abrir o misterioso postal. lá dentro um cartão azul leva-a ao espanto. e umas palavras naquela letra que conhece tão bem. a curiosidade sempre foi o seu fraco. lê uma e outra vez, e outra. naquele momento foi feliz. pela tentativa. pela memória dos dias passados. pelos dias perdidos. pelo tempo recuperado. pelo gesto. pelo presente.
não está certa se alcançará a terra-mãe, mas decerto que está mais próxima. sorri. também de orgulho e de admiração.
daí a alguns meses, no meio de tanta vozes, duas vão querer cantar em uníssono. e regressar a si.

a ti, emi.

o grande irmão

a cidade está deserta. o silêncio absorve qualquer som que começa a surgir. tudo está aparentemente calmo.
regressa a casa. abre a porta tentando evitar que alguém repare.
acende a televisão, o ecrã mantém-se desligado. experimenta o rádio, também este permance calado. senta-se no sofá e desfolha uma revista mas não se consegue concentrar. telefona aos amigos e o atendedor é o único a atender as chamadas.
vagueia pela casa, sem sentido. começa a ficar nervoso. precisa de beber qualquer coisa. a tensão paira no ar e aquela sensação não desaparece. vai até à cozinha. em cima do balcão estão duas facas (não se lembra de as ter deixado ali). olha de novo, e vê uma mancha acastanhada. aproxima-se - não há dúvida, é sangue. sente-se desfalecer. fecha os olhos e abre-os lentamente. o balcão está, afinal, imaculado.
já não aguenta mais. não sabe se estará a ficar louco. apressa-se a sair de novo. e tudo está como antes. caminha com passos largos, começa a correr pois sabe que alguém o persegue, de certeza que está a ser observado.
à sua frente desenha-se um olho gigante que o engole.

quarta-feira, abril 19, 2006

canção de embalar

fiquei contigo no compasso em que dizíamos adeus
foi assim porque pude escolher.

recordo apenas a ausência da tua voz
preenche-me o silêncio, preenche-me a solidão.

deixa-me encontrar a tua boca salgada
vou partir depois de te dizer que ainda te amo.

ficava aqui esta noite até adormeceres
se me lembrasse da canção de embalar.

onda sonora: ficar (canção de embalar) – margarida pinto

domingo, abril 16, 2006

para quê a cruz?

I. a insatisfação de Deus ou a esperança ingénua de Jesus
Virou os olhos para Jesus, fez uma longa pausa, e depois, como quem se resigna ao inevitável, começou, A insatisfação, meu filho, foi posta no coração dos homens pelo Deus que os criou, falo de mim, claro está, mas essa insatisfação, como todo o mais que os fez à minha imagem e semelhança, fui eu buscá-la aonde ela estava, o meu próprio coração, e o tempo que desde então passou não a fez desvanecer, pelo contrário, posso dizer-te, até, que o mesmo tempo a tornou mais forte, mais urgente, mais exigente. (…)”
“E a minha morte, será como, A um mártir convém-lhe uma morte dolorosa, e se possível infame, para que a atitude dos crentes se torne mais facilmente sensível, apaixonada, emotiva, Não estejas com rodeios, diz-me que morte será a minha, Dolorosa, infame, na cruz (…)”
“(…) Diz lá, Tu és Deus, e Deus não pode senão responder com a verdade a qualquer pergunta que se lhe faça, e, sendo Deus, conhece todo o tempo passado, a vida de hoje, que está no meio, e todo o tempo futuro, Assim é, eu sou o tempo, a verdade e a vida, Então, diz-me em nome de tudo o que dizes ser, como será o futuro depois da minha morte, que haverá nele que não haveria se eu não tivesse aceitado sacrificar-me à tua insatisfação (…)”

O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem, Referes-te aos que te seguirem, Sim, se serão mais felizes, Mais felizes, o que se chama felizes não direi, mas terão a esperança de uma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo, portanto a esperança de viverem eternamente comigo, Nada mais, Parece-te pouco, viver com Deus, Pouco, muito ou tudo, só se virá a saber depois do juízo final, quando julgares os homens pelo bem e mal que tiverem feito, por enquanto vives sozinho no céu, Tenho os meus anjos e os meus arcanjos, Faltam-te os homens, Pois faltam, e para que eles venham até mim é que tu serás crucificado (…)”


II. a tigela negra ou a verdade de Deus

“(…) Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá vir a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal morticínio e tais cemitérios(…) o Diabo, sendo mentira, nunca poderia criar a verdade que Deus é(…)”
“ (…) Tens no teu alforge uma coisa que me pertence. Jesus não se lembrava de ter trazido o alforge para o barco, mas a verdade é que ele ali estava, enrolado, aos seus pés, Que coisa, perguntou, e, abrindo-o viu que dentro não havia mais que a velha tigela negra que de Nazaré trouxera, Isto, Isso, respondeu o Diabo, e tomou-lha das mãos, Um dia voltará ao teu poder, mas tu não chegarás a saber que a tens. (…)”
“Depois foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.”

José Saramago (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)


III. o sangue ou a luz

não sei de que verdades se vestem Deus e o Diabo. talvez da mesma verdade ou da mesma mentira.
Jesus, o filho de Deus, um homem entre os homens, morreu na cruz.
a insatisfação dos homens continua a ser a insatisfação de Deus, continuamente crescendo paralelamente. não somos hoje mais nada – nem mais felizes, nem mais esperançosos ou mais crentes. o céu é já oferta pouca.
resta a estória: as estórias que se escreveram do sangue que soube dar vida e que soube dar morte. sangue que enegreceu a tigela, que não mais se falou. sangue que nos deu a Luz e a paz, se a quiséssemos receber.
as vozes que dizem pregar a palavra de Deus, repetem: pecado, ridiculamente. já não têm mais o poder da infame morte na cruz, que já não têm mais a beleza, o amor, ou a paixão. nem o sangue de uma taça as pode reanimar.

hoje é páscoa – dia da ressurreição – mas já nada há para renascer.

quinta-feira, abril 13, 2006

um dia

Um dia dir-te-ei:
azul
e saberás ler nos meus lábios:
azul.

Um dia dir-te-ei:
qualquer coisa,
e sentirás em ti que
desejei estar do teu lado.

Um dia dir-te-ei
que já não sou capaz,
e saberás que há muito tinha perdido
a esperança.

Um dia dir-me-ás
paz,
na esperança de recuperarmos
o amor.

eu já estarei com as estrelas
e chorarás por mim.

conversas paralelas

- hoje, tenho muitos mais anos que tu. tenho até muitos mais anos do que tinha quando tu nasceste. pode parecer disparatado, mas quero dizer-te que tenho vivido exponencialmente, tudo o que vivi poderiam ter sido muitos mas muitos mais anos por isso te peço que sejas apenas um pouco diferente, que te comportes de outra forma, que repenses os teus objectivos – pois sei que serás mais feliz, porque sei que estás a cometer erros que poderás não poder reparar.
- ouço-te, rapidamente perdes a paciência quando temos de falar. e é raro que o teu discurso seja para mim – é sempre para o alguém que tu não foste. é raro que essas palavras sejam para me proteger. essas palavras são os rumos que gostarias de ter escolhido para ti. compreendo-te, talvez um dia também eu seja assim, mesmo que hoje me pareça impossível. infelizmente eu sou apenas eu e não posso realizar nenhum dos teus desejos- a não ser que neles contemples a minha felicidade. os meus projectos são tantos que provavelmente não os realizarei a todos, talvez nem um deles, mas ao menos deixa-me sonhar que um dia irei conseguir.
- sei que antigamente tudo era diferente. a vida era outra. as exigências também. as vezes penso que até os sentimentos eram outros. estou cansada desta vida, destas rotinas. mas há muito tempo que sabia que seria assim. vejo em ti, uma força que não é minha. és parecida – nessa rebeldia, nessa atitude, nessa ideias, nessa personalidade forte, mas não comigo. entendo-te mas... o que vão pensar? às vezes gostava que fosses como-toda-a-gente... pergunto-me muitas vezes o que terei feito de errado contigo.
- quando estou contigo sinto sempre que nos expressamos em línguas diferentes, nem eu nem tu nos encontramos. tu conversas contigo e eu comigo, numa conversa paralela em que apenas ouvimos a nossa própria voz. gostava de ser mais paciente contigo, gostava de te dar o espaço que também tu precisas...
gostava que me deixasses cair, deixasses errar, deixasses ser infeliz, assim com tudo a que temos direito. às vezes, sinto que gostava de ser parte dessa igualdade, para te ver sorrir, para eu sorrir, na pacificidade dessa escolha.
desculpa mas nunca sou capaz.

terça-feira, abril 04, 2006

um café argentino


quatro da tarde, 32º C. por hoje, terminou o trabalho. está cansada e o calor amolece-a ainda mais. apanha o autocarro, que já vai cheio – na maioria pessoas vindas do trabalho, de todas as idades, todas as classes sociais. o autocarro é um transporte popular, poderia até ser agradável se não estivesse tanto calor. só pensa em chegar a casa, a ânsia faz o caminho demorar-se mais.
chega a casa. toma um duche frio e demorado. escolhe um vestido branco que faz sobressair o moreno bronzeado da pele. olha-se ao espelho – uma lágrima corre-lhe pela face. o entardecer espera-a lá fora. sai e caminha lentamente sem ver por onde vai – não tem lugar algum para ir. numa rua estreita e pouco iluminada, o cheiro do café amargo contamina o ar. entra num café mal iluminado. apenas se ouvem sussurros, e as colheres que mexem o café nas chávenas. senta-se e espera. espera por nada. espera que o tempo passe – que a vida passe e lhe diga adeus.
alguém se aproxima e senta-se sem pedir licença. é ele. deseja que se afaste mas não consegue impedi-lo de ficar. não diz nada. mas o silêncio conta uma estória triste. e ela já não está lá.
corre descalça pela rua, os sapatos de salto alto na mão, as lágrimas a secarem no rosto. o desespero de ter perdido outra vez. tudo. amanhã não lhe apetece começar de novo.
na praça uma mulher canta um tango, com uma voz hipnótica. canta apenas para si. talvez já esteja embriagada, talvez seja louca, talvez esteja morta. fica imóvel e deixa-se ferir por cada palavra, por cada momento. começa a regressar sem dar conta. quer saborear um café, um amargo café argentino, numa esplanada deserta, na companhia de um piano desafinado.
os sonhos, o amor, o futuro já não existem. quatro da manhã, 27ºC.
amanhã cantar-lhe-á o tango, aquele tango, de vestido branco e sapatos altos, de alma perdida – é assim que vai querer morrer.

segunda-feira, março 27, 2006

"it seemed a place for us to dream"

a escuridão da noite, a voz melodiosa que se arrasta, a música quase viva persegue-me. sou obrigado a partir, talvez numa viagem até ao passado que não sei querer recordar.
a paixão morreu, o lugar dos sonhos desapareceu, parte de mim adormeceu contigo.
ontem revivi-te sem querer. ontem, a minha casa foi incendiada. não tenho mais onde morar.

onda sonora: narcoleptic - placebo

segunda-feira, março 20, 2006

carta

sei que o dia de nos encontrarmos chegará em breve. apesar de te ir conhecendo, tenho um medo terrível de me desiludir. o futuro tem-me dado algumas pistas, todas elas assustadoras. sei que és única. mas ainda não encontrei o que há de bom nessa exclusividade. por vezes sinto que estás a fugir-me, que caminhas para um abismo onde te queres refugiar do mundo. e a mim? o que me resta? só perder. derrotar-me e derrotar-te.
às vezes penso que a tua dor foi mais forte que tu. a sensibilidade madura, a inteligência relacional e dos sentimentos, que te definiam converteu-se agora numa frieza cadavérica – nada te choca, nada te move, nada te emociona. já poderias ser uma massa inerte e, no entanto, pareces ficar satisfeita. decerto que algo está a acontecer. só assim posso justificar essa tua passividade.
a única coisa que me descansa é o brilho dos teus olhos – ainda te restas. mesmo assim não consigo deixar de temer por ti. és a âncora de todos. e tu?, o teu porto parece estar distante e a tempestade aproxima-se. tenho esperança num sol por entre as nuvens.

encontrar-me-ei comigo no futuro próximo. as incertezas desaparecerão pela impossibilidade de coexistirem com a verdade de mim. a originalidade provavelmente não terá hipótese contra a necessidade imperativa de sobrevivência que dita a igualdade. pergunto-me se cederei à loucura de seguir o caminho que desejo. e cá dentro há um medo brutal de falhar o alvo, de voltar à indiferença. sossega-me saber que o abrigo desta vez é mais seguro, apenas um pouco mais.

domingo, março 19, 2006

as poesias de cada um são infinitas

gosto desta fidelidade das palavras, desta exactidão na organização das frases.
gosto destes significados que se multiplicam sempre que volto a ler (estas e outras prosas).
gosto de pensar que são todas minhas, as palavras, nunca me pertencendo por inteiro.
gosto de sentir que são de toda-a-gente, que se completam em cada alma, e que lembram um sonho a alguém que eu não conheço e que não me conhece, que dão uma esperança ainda que ínfima a quem já nada espera, que criam sorrisos ou que fazem perder uma lágrima a alguém. as palavras são as mesmas, as frases também, contudo as poesias de cada um são infinitas.
gosto de saber que só há uma maneira de ler – a nossa. e é tão própria, tão única e tão diversa quanto nós. e é isso que dá sentido a esta partilha de expressões egoístas – quem as lê na sua vida, dessa maneira tão particular que eu não posso sequer inventar ou imaginar.

gosto de acreditar que é assim que acontece, para que o catavento continue a girar.

sábado, março 11, 2006

o primeiro minuto

naquele momento só tu contas, só tu és importante. conhecemos-te pela primeira vez. não te imaginámos assim, da cor da morte. e agora ainda que feio, só conseguimos gostar de ti. foi tão difícil chegar até aqui. pensámos que o derradeiro momento seria diferente. a dor mais que física é a dor de nos separarmos de ti. a dor de já não seres apenas nosso. agora apenas a ti pertences.

havia uns sons, que agora sei serem vozes, nada fazia sentido. mas não me sentia perdido, era como já conhecesse aquelas presenças. e apenas pude sorrir. não recordo o rosto que vi pela primeira vez, recordo sim o tacto daquela pele macia. é isso que me abraça quando não consigo dormir. é só isso que me acalma quando choro. e aquele amor, pairava por ali. como vou esquecer aquela felicidade? está calor, mas não aquele calor envolvente que havia antes daquele momento. esse nunca mais aconteceu. ouvi dizer que esta dor se chama crescer.

durante tanto tempo preparei a tua vinda. o tempo foi passando. estudei tudo o que poderia acontecer. previ o acontecimento seguinte com a capacidade de uma vidente experiente. às vezes lia as estrelas, mas nunca vi a dificuldade, nunca percebi o que aconteceria quando chegasses. e agora que aqui estás junto a mim, nada é como imaginei. abraço-te. sei que és capaz de me ler os pensamentos e por isso tento só pensar em ti. como será crescer contigo?levam-te e cedo à angústia. tenho medo de te perder.

um passeio pela cidade

não há direcções a seguir. as construções povoam os espaços e impedem a passagem totalmente aleatória. mas não se pode negar como gostamos de nos esconder por detrás desses muros. de nos fingirmos cegos, para depois nos quedarmos deslumbrados no que está para lá das altas paredes e das estranhas esquinas.

há fadas que esvoaçam. há duendes, gnomos...casas de chocolate, de doces. é possível viajar até às nuvens e ver o sol nascer de perto. as bruxas existem – conseguimos ouvir o seu riso estridente ao longe. conhecemos o medo e também a coragem.

jardins, monumentos, abelhas, restaurantes, sapatos, bares, ruas sombrias, flores, iluminação nocturna, bancos, pessoas – gentedenegócios, artistasderua, mendigosdojardim, trabalhadorescomuns, gentevelha, criançasderua, apenaspessoas, relógios, ambientes, pedras, roupas, estilos, sons... todas as coisas, todos os lugares, todos os tempos se concentram - preto no branco, branco no preto. a preto e branco, a não cor. ninguém consegue ver o momento paralelo à distância de um sorriso, de uma recordação feliz, de uma esperança no futuro melhor.

encanto. predomina a cor. enche o ecrã, onde se movem os personagens. e também nós ali estamos e sem esperarmos, acontecemos. a simplicidade. os pormenores. só podemos querer ir por ali.

por detrás daquela esquina é paris, talvez a terra do nunca.


onda sonora: le fabuleux destin d’amelie poulain - yann tiersen

ando por aí

há dias que me consomem. de tão ausentes. de tão intensos. e nada mais existe. nada mais há a dizer. tudo acontece na realidade, só acontece onde ninguém vê. julgam-me desaparecido mas estou por aí: ocupado a viver.

domingo, fevereiro 12, 2006

palavras

palavras
escritas
em que me despia
para te falar
baixinho de amor,
talvez.
palavras
que se consumiram
no momento em que parti
só para lugar nenhum.
palavras amargas
apertadas
pela solidão
a que se condenam
lentamente.
palavras
que nos dizem
sem quererem
adeus.


onda poética: adeus ("já gastámos as palavras...") - eugénio de andrade

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

remoinho

o gás a libertar-se no copo num líquido amarelo. e ele a deixar-se levar pelas bolhas cada vez maiores. há uma voz ao fundo que já deixou de reclamar atenção. há figuras de pessoas em volta, mas tão longe daquele minuto de laranja. e depois há o espaço, os ruídos e os cheiros- os sentidos misturam-se e adormecem-se uns aos outros. há um moinho. há o auto-retrato de van gogh no muro de um castelo que se completa dia após dia. há alguém que lhe pede explicações. há o nó no estomâgo que o mata lentamente. há o momento da coragem. há a chuva que revela os pensamentos. há o não-tempo.
e depois o gás a libertar-se no copo num líquido preto. e depois?

sábado, fevereiro 04, 2006

ontem

escrevo-te agora que já estou longe. já não me podes surpreender numa despedida. não tinha nada para te dizer, nada que me fizesse sentido. nesse momento, eu nem existiria perto de ti.
nunca cheguei a saber que parte de mim tu compreendias. talvez a minha presença, talvez. (e agora como será, depois de mim?). nunca soube como interpretar estas coisas, estes sinais.
quando hoje penso em ti, penso no que te irá acontecer e sonho em ir visitar-te quando voltares a casa. mas por outro lado, não quero sentir mais essa dor que me causas, por ainda não saberes. nunca te vi chorar, nunca!, provavelmente, chorarias por dentro, ou já não terias nada mais para chorar. tentei dar-te o que de melhor havia em mim, o que muitas vezes era pouco, e muitas outras não consegui. mesmo assim, presenteaste-me com o teu sorriso. lembro-me de regressar a casa feliz nesse dia e no outro e no outro...

talvez isto pudesse ser um pedido de desculpas ou talvez um obrigado*