segunda-feira, março 12, 2007

sal

o som dos fados chega-me arrastado.
recordo o dia da partida. um dia qualquer de Inverno que aconteceu sem se dar por isso.

vagueio pela cidade que não me conhece. procuro as ruas estreitas tentando encontrar o mistério que sempre mora nesses sítios e que me fazem recordar…
conto-te, cidade, apenas por estar só.
a distância que prolonga a ausência mata-me por dentro. a palavra regresso é vaga e indeterminada. às vezes nunca se regressa de onde se partiu. Outras fica-se prisioneiro de para onde se partiu. o espaço que tinha guardado para a saudade vai-se perdendo. é este frio gelado que me torna pedra e destrói cada pedaço de quem fui. o tempo leva ao esquecimento e a vida quer negar-se nessa inexistência de emoção.

o som da portuguesa guitarra desaparece a cada acorde, o sal das lágrimas sabe a mar – sabe a saudade.

onda sonora: chuva - mariza

domingo, fevereiro 18, 2007

ruína

a nota que apaga
a partitura que perde
o ritmo que descompassa
a casa que cai
a noite que chega
a destruição que acontece
o negro que pinta
a tristeza que morre
a solidão que renasce

a ruína que a ama

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

despedida (em três actos)

1.
sobramo-nos já
gastámos todas as palavras
gastámos todos os amores
gastámos a diferença dos dias
gastámos os olhares e as descobertas

2.
fazemos as malas
sem fotografias
não nos vamos encontrar
hoje não
amanhã também
vamos por ruas diferentes
à procura do adeus


3.
espero-te
naquele lugar perto do rio
já encontrei as asas livres
quero gastar todas as saudades
quero gastar todos os adeus
contigo

sexta-feira, janeiro 12, 2007

o castelo

está já escuro. ao longe ouvem-se gritos guerreiros que o acordam. o cenário é sinistro. muitas árvores sem folhas. apesar da noite distingue os recortes dos ramos, encolhe-se dentro das roupas, com medo. as roupas que tem vestidas são estranhas. pertencem a outro tempo mas ao mesmo tempo aparentam uma certa modernidade que não lhe permitem dizer de que época são. não acredita em viagens no tempo. não sabe como foi ali parar. lembra-se vagamente de um museu. lembra-se de uma energia inegável de tão forte que se mantém agora na sua confusão.
os gritos parecem ser mais fortes, ao mesmo tempo parece ouvir sussurros atrás de um tronco robusto. quer investigar mas as pernas tremem-lhe. será que está mesmo noutro lugar? contudo alguns pormenores são-lhe familiares.
a custo rasteja para trás de um outro tronco e respira fundo. as vozes estão cada vez mais próximas. aproximam-se cavaleiros armados com lanças e com escudos. trazem tochas que iluminam aquele lugar. são cerca de dez. com eles vêm também uns vinte soldados. parecem discutir. talvez uma estratégia de ataque. não consegue perceber. pouco tempo depois são atacados por guerreiros que parecem estar deslocados de época, falam francês e vestem-se com as roupas do exercito francês no tempo de Napoleão.
deixa-se ficar escondido atrás da árvore. aparecem mais homens. ouve palavras em húngaro e alemão. alguns falam italiano. estes últimos parecem vir do inicio do século XIX. está cada vez mais aterrado. os homens gritam todos ao mesmo tempo. não se conseguem entender.
ninguém consegue encontrar o adversário certo. afinal estão todos do mesmo lado. mas em tempos diferentes. olham para as roupas uns dos outros e não encontram as armas equivalentes. uma lança e flechas, armas de fogo e guarda-chuvas que escondem setas envenenadas e livros não têm o mesmo peso. os homens olham-se boquiabertos. e ficam assim por muito tempo. sorriem e regressam ao castelo no cimo da colina. já é seguro regressar a casa. é seguro quando se fala em liberdade.
sai do esconderijo e tenta seguir os homens.
só se lembra de acordar dentro do castelo. está sozinho. levanta-se e sai pela porta que diz exit.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

vou ter saudades dos assadores de castanhas...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

o corpo

deixa-se ficar sobre a cama. o corpo nu e frio, enrolado sobre si mesmo. os olhos fechados. as lágrimas inundam-lhe o rosto. está assim há muito tempo, impossível precisar desde quando. a janela entreaberta deixa entrar o vento quase glacial. um corpo quase morto. à sua volta tudo está impecavelmente arrumado. nada está fora do sítio. até os lençóis da cama estão esticados, como se o corpo ali tivesse sido depositado.
é um quadro surrealista. uma fotografia contemporânea, uma coisa moderna.
o corpo imóvel, cada vez mais se mistura com a brancura do cenário. lá fora começa a nevar.

chega mais tarde que o costume. pensou ter perdido a chave. e não estava preparado para a neve. sem saber porque sentia-se impedido de chegar. e sabia ser preciso chegar quanto antes. não consegue entender a diferença de hoje e de todos os outros dias. chama. ninguém vem. a solidão entranha-se sem se dar conta. percorre a casa e deixa a angustia instalar-se. pára à porta do quarto e entra devagar. como se este fosse o ultimo momento. o ultimo de todos. o corpo sobre a cama parece-lhe de um azul celeste: impossível. sem se conseguir apressar, aproxima-se. lentamente toca-lhe os olhos e limpa s lágrimas ainda molhadas. beija-lhe a face salgada. pensa ver um sorriso, mas talvez tenha sido o medo.
levanta-se para fechar a janela aberta. recuperando a agilidade dos movimentos – despe-se, deita-se ao lado do corpo adormecido e abraça-o, como se o calor do seu corpo fosse a única arma contra o fim.

o calor do outro: a inquietação, o medo da perda, da dor...fazem aparecer um sorriso tímido. um beijo e outro. palavras sussurradas pedem-lhe que fique. pedem que sorria. um beijo e mais outro. e o abraço que permanece. os murmúrios são agora mais audíveis. prometem-lhe ajuda para sair da tristeza para que se evadiu. o corpo começa a ficar morno e menos adormecido.
sem certeza entreabre os olhos, com dificuldade. devolve o sorriso, um sorriso pequenino. um beijo. uma lágrima mais. promete ficar pelo menos até amanhã. e o abraço que permanece.


onda sonora: song for a blue hearth - the gift

domingo, dezembro 03, 2006

o astrónomo

morava numas águas-furtadas, num prédio velho numa zona antiga, já nos arredores da grande cidade. aborrecia-o a azáfama da cidade. todos os dias pensava em mudar-se para o interior, um lugar mais silencioso como lhe convinha.
lembrava-se vagamente de se sentir em casa. por vezes apareciam-lhe no pensamento palavras a que não conseguia atribuir significado, mas que lhe aqueciam o coração, lembrava-se de adormecer a ouvi-las... talvez fossem a sua língua mãe, uma língua desaparecida, talvez mesmo já morta. talvez não.
onde estariam os seus irmãos? onde estariam aqueles que falavam a sua língua? lembrava-se de sentir qualquer coisa especial quando olhava uma flor ou um pequeno pássaro a aprender a voar! na cidade nem havia vida para além dos homens.
o anoitecer era sempre um privilégio. no seu pequeno terraço, montava o telescópio, cuidadosamente guardado. procurava estrelas quase ao acaso. gostava de as encontrar, de se surpreender com as pequenas viagens estelares. sorria timidamente, não duraria até amanhã. e quem se iria importar com um astrónomo que procurava a beleza das coisas pequeninas? aconchegava-se com o cobertor já de estrelas apagadas e deixava-se ficar a chorar baixinho. procurava em si o sentimento especial que o encantava quando era criança (se alguma vez o fora), quando abraçava árvores, quando abraçava…não conseguia lembrar-se…
restava-lhe adormecer sonhando com outras galáxias, fora da cidade coberta de fuligem – decerto que numa delas estariam os seus irmãos. e o seu telescópio iria encontrá-los.

fairy, a caixa de música

era laranja. nunca se havia visto nenhuma assim. conservava o seu brilho, apesar dos anos. pretendia alcançar a perenidade tal pedra filosofal. mas era uma mera caixa de madeira, sem qualquer adorno que a distinguisse de uma vulgar caixa de madeira. apenas a sua cor se insinuava. na tampa, em letras minúsculas, podia ler-se “fairy”, palavra sem qualquer significado.
lá dentro não habitava uma bailarina, mas sim um pequeno catavento – rodopiante, que girava ao som da música. se olhássemos com atenção conseguíamos ver um mundo louco e desordenado, como se uma dimensão paralela existisse simultaneamente. aterrador e fascinante.
poderia pensar-se que esta caixa era muito cobiçada…quem não desejaria ir até à ampliação máxima da sua imaginação? porém a pequena caixa jaz caída num sótão poeirento. nunca foi descoberto o mistério da passagem secreta que encerra. conto-vos agora: basta abrir a caixa, fechar os olhos e encontrar um tempo para se poder acreditar na fada. ela virá ao nosso encontro para nos levar, mas só se estivermos dispostos a apreciar a viagem. só se pretendermos abdicar do supérfluo visível para podermos descer às obscuras ou brilhantes profundezas, daquele que se afigura o nosso abismo.

onda sonora: colleen – the golden morning breaks

terça-feira, outubro 24, 2006

amor-te II

vejo-te chegar. esperam-te as paredes brancas, despidas e frias de um quarto igual a todos os outros. expressão indiferente. não sei se em paz ou aterrorizado. acho que nunca o poderei dizer.
procuro recordar o dia em que chegaste. quero lembrar-me… falei um pouco contigo, expliquei-te o habitual, as rotinas e sorri-te, um sorriso aberto… ainda hoje não compreendo porque o fiz. o sorriso não me confortaria, mas dei-to à mesma sem que mo pedisses. tinhas apenas 53 anos, talvez 41 ou 32, quem sabe? é difícil recordar idade, sobretudo quando se sabe apenas, que é a última.
ficaste no quarto do fundo, o mais sossegado. de manhã podias ouvir os pássaros e contemplar o nascer do sol. parecia agradável. todos te tratavam “bem”. tu nunca dizias nada. nunca. dizia-se que tinhas emudecido, que esse mutismo se devia à revolta interior que vivia em ti.
visitava-te muitas vezes, mesmo quando não era eu responsável pelo teu cuidado. deixei de te sorrir e falar também. toleravas-me. acho que não me mandavas embora para não me magoares. tu sabias bem que o brilho dos teus olhos, que se mantinha aceso, me fazia gostar de ti, muito. eu sabia que não querias que sofresse.
chorei no dia em que partiste, não sei para onde foste. nessa manhã, estendeste-me a tua mão esguia e magra. eu dei-te a minha e ali fiquei até que me disseste “obrigado”.
os teus olhos estavam já fechados quando cheguei, à tarde. estava um fotógrafo a procurar-te uma expressão da tua dignidade, disse-me ele. e eu fiquei mais um momento, em silêncio como tu. não consegui abandonar-te, assim.

não conheci a tua angústia o que ainda hoje me perturba.
entro agora no teu quarto e sorrio, recordando a tua mão fria que apertou a minha naquele dia: de brilho nos olhos e de alma perdida.


(depois de "amor-te")

amor-te I

de que cor são os teus olhos
antes negros?
de que sal são as tuas lágrimas
que vão secando?
de que luz nascem os cabelos
que ainda te iluminam?
de que morte falas nesse amor
que me contaste?
de que amor se conforta o teu coração
que já não bate?
é de amor-te que vem um sopro
para te levar.


(depois de "amor-te")

quinta-feira, setembro 28, 2006

dazibao*

o tempo está a esgotar-se, apesar de ser cada vez maior. todos os dias lhe apetece querer correr até à parede azul, onde já se encontram outros artigos, outros pequenos fragmentos de vidas diferentes e distantes no entanto, procura conter-se.

diz-se daquela parede, que é pública, mas a privacidade parece querer roubar-lhe a designação e afirma-se num crescendo imperturbável. a censura procura diariamente o autor dos delitos, traduzidos em palavras inocentes, ou não. os papéis são também azuis, vendem-se correntemente em qualquer papelaria; melhor, em todos os estabelecimentos comerciais de todos os lugares. soube esconder-se, apenas o suficiente para não ser descoberto.
todos os excertos publicados são apátridas: não vêm da terra da certeza, nem da da incerteza, não vêm da terra do concreto nem da do abstracto, nem da terra do imaginário nem da da realidade, ao mesmo tempo, parecem chegar um pouco de cada uma delas.
de quando em vez nascem perguntas, outras vezes afirmações e nascem respostas e diálogos a partir de tanta coisa e de coisa nenhuma.
alguém escreve sobre catavento, a censura desconfia…contudo, catavento é qualquer coisa em via de extinção (já nem se sabe bem se é um objecto ou um animal, uma cidade ou um produto químico), na era da informação sempre segura e da segurança firme na escolha (?) de caminhos - o mesmo seria falar de ninguém.

a ele apetece-lhe escrever e escrever-se. não se livra daquela conotação autobiográfica que lhe define o estilo das prosas e das poesias. hoje, 25 de setembro, não irá até lá, à parede, como a vontade lhe manda, deixar-se-á ficar inerte. talvez mais tarde gostasse de escrever para comemorar. mas comemorar as tristezas e as alegrias de si mesmo, comemorar a indiferença e o desinteresse? mais uma vez não é feliz a encontrar justificações plausíveis e coerentes. pensa nunca se ter arriscado por si. os polícias andam por aí e hoje a censura atribui penas pesadas aos infractores. escreveu esperando a discussão, esperando a crítica, esperando algum amor pelas palavras e as emoções e sentimentos de desconhecidos. esperou encontrar novas perspectivas e novos trilhos. sonhou até com discussões acesas, fóruns abertos e muita partilha, mas não. começa acreditar na ilusão.
agora pensa se valerá a pena? não será tudo isto um exercício egocêntrico de se mostrar? não será tudo isto mais um capricho, uma vaidade dos seus idealismos? mais uma chamada de atenção, o acender uma luz sobre a sua existência?
o tempo é cada vez maior mas esgota-se célere. não resiste e corre até à parede. cola outro escrito de si. amanhã será diferente: talvez a censura o apanhe ou as forças que o animam, essas esperanças de que o sonho se realize se sumam.

a parede azul está cada vez mais vazia e em breve será derrubada.


*dazibao é um jornal de parede, tendo sido muito utilizado como instrumento de agitação ideológica no período de revolução maoísta.

quarta-feira, setembro 13, 2006

o lugar dos ciprestes

as pessoas de semblante vestido de preto acabam por tingir as suas roupas de tonalidades semelhantes. o cortejo lento até aos ciprestes traz a incerteza: o tempo parou? ou estamos perante um compasso mudo?, uma pausa maior que semibreve?
chove. o cenário lembra um filme americano.
o silêncio não se impõe; é, antes, inevitavelmente interrompido por palavras vazias ou religiosas, nenhuma delas com sentido. naquela casa, o silêncio trazer-nos-ia decerto as lembranças do passado feliz. saberíamos sorrir e não lamentar. saberíamos apreciar e ser capazes de viver amanhã. os rostos choram, as bocas falam, numa tentativa de preencher as acções e os momentos que não aconteceram, de calar a voz interior que sussura que, hoje é já demasiado tarde para as recordações, impossibilitadas de se construírem depois.
é uma farsa, um teatro, talvez possa mesmo ser um exorcismo da culpa incómoda, que se instala e que cresce com o tempo (e a que se atribuí o nome de saudade, erradamente, para se prosseguir descansado).

a etapa dos ciprestes haveria de chegar natural e necessária como sempre, conferindo um sentido ou um fio condutor, para ti e para nós. Pergunto-me se este será o último capítulo ou apenas mais um entre tantos. Qualquer das duas hipóteses me conforta.
desta vez, nem sequer me interessa discutir as causas. nem sequer me interessa que pensem que estou louca por não desejar uma continuidade (ainda que triste e desesperada) mantida por uma medicina avançada, em lugar de uma paz merecida e serena (ainda que dolorosa para todos).
ouço as palavras do sacerdote, de que discordo na sua maioria, muito distante dali. estou ocupada a pensar em colares de pinhões e ameixas saborosas que apanhava quando tinha quatro anos, “como será possível viajar até tão longe?”. dou por mim a acenar sem querer quando concordo com aquela vontade de ser melhor hoje já. será que alguém o ouviu? ou o eco é um resultado do medo de não parecer bem?
os olhares indiscretos condenam-me a ser pedra: dura, fria e intacta. será que ninguém vê as marcas da erosão? será que não sentem o calor do meu corpo, que nem a chuva e o vento fazem desaparecer? contudo é na pedra que todos se apoiam, ignorando a superfície em transformação. alguém reconhece alguma vida por ali, um alguém singular e demasiado perspicaz.
às vezes dói-me esta diferença, por ser difícil, mas já não consigo fingir o que não sinto e também já não me importa.

choveu o suficiente, por mim. só senti falta daquela graça que dizias quando me vinhas visitar. essa ninguém quis recordar.
um destes dias, sei que vou visitar o lugar do cipreste, talvez uma vez por ano, como manda uma tradição qualquer e nem vais reparar. onde quer que seja a próxima casa, mesmo que seja infinitamente longe, a luz vai apenas acender em ti, quando eu me lembrar das ameixas e dos pinhões.

não queria estar ali e hoje teve de ser.

sábado, setembro 02, 2006

as árvores morrem de pé

castanho claro é a cor da terra que rodeia e acentua o contraste dos paus nus e negros, que vejo da janela do carro em andamento.
ali, à distância de uns pequenos passos, estão os corpos de quem já foi gente. não se pára, não se abranda, nada. não há tempo sequer para contemplar. e talvez seja melhor assim. não se sai impune desse contacto. não se permanece incólume ao confronto com o fim.
o espectáculo encena-se amargo. os troncos gigantes assumem a sua posição póstuma. altivos, desprezam a devastação a que foram condenados. abraço-os com o olhar, estupidamente, pensando poder amparar qualquer coisa. rapidamente me rendo à pequenez perante aqueles que, impossibilitados de se refugiarem noutro local, se deixam ficar ao sabor do vento, morrendo de pé, ignorando os olhares indiferentes e a destruição imerecida.

sábado, agosto 26, 2006

o plural da memória exacta

tenho de te escrever hoje. registar tudo para não me iludir no futuro, de como foi. quero-te como agora foste, assim. descrever o teu sorriso, simpático, encantador, que mostra o teu dente meio partido, que te dá graça. e os teus olhos que com ele se combinam, para dizerem que sim, que estão felizes, revestindo-se de um brilho inexplicável.

quero-te escrito hoje, momento. recordar todas as palavras - sobretudo aquelas que não se disseram e se poderiam ter dito, e aquelas outras que foram ditas, sem se dar conta.

hoje, vou escrever, actos – a exactidão dos encontros. os factos na sua verdadeira ordem, na que aconteceram realmente. vou ignorar fantasias supérfluas e ilusões enganadoras. tudo será precisado.

escrevo-te agora que já não estás. e agora, apesar de já, o tempo já foi demasiado longo. o sorriso compõem-se altivo, a poeira das palavras que se guardaram e não se disseram desaparece, surgem significados absolutos para os actos, razões indiscutíveis para os encontros, os olhares foram, afinal óbvios e a ordem dos acontecimentos evidente.

amanhã, escreverei de novo. sei que porei uma vírgula para me encontrar e um ponto final para evitar a tristeza. nunca será difícil recordar se tudo escrever.

a lembrança estará sempre à minha espera, sem se importar com os olhos que levo para a contemplar.

música de cobertor

escolho o CD de sempre, na estante. encontro-o à primeira, sem hesitação. ligo a aparelhagem e espero serenamente. adivinho as primeiras notas (que pensava saber de cor). depois de tanto tempo ausente, a surpresa encontra-me distraído. deixo as músicas fluir, como se nada mais houvesse para fazer. canção após canção, a admiração vai-se entranhando. agora compreendo o significado deste tempo em que não estive. a transformação não se abandona, permanece, e também em mim se deixa ficar. os versos crescem na beleza, as melodias no poder.
escolhi-o, por hoje, mais que nunca, ser inverno. um inverno que aparece de quando em vez ,sem se esperar, que se ri dos 40º do termómetro.
procuro o cobertor que sempre acompanha aquelas notas - um abrigo que me conforte com o seu calor. ouço a minha história, desapaixonante, contada pela prisioneira desconhecida na rodela prateada e rosa. espero que me leve até depois do quarto verde. "leva-me para que eu encarne o sorriso ténue e breve, que talvez me tenha sido prometido."
a noite alcança a madrugada. a voz insiste, perguntando-me como será amanhã. quero responder, fingir certezas para ter um lugar nessa viagem.
desesperado, pelo medo que não me desabita, puxo mais o cobertor e fico imóvel. lentamente fecho os olhos e entrevejo uma janela aberta e um cobertor que dança ao som daquela tua voz, inconfundível.

terça-feira, agosto 01, 2006

a janela sobre o tejo

acorda mais cedo. o sol entra-lhe pela janela e rouba-lhe a vontade de ficar sozinho. veste qualquer coisa sem vontade. sabe que a sua casa é a rua. ou será a rua a sua casa? seja como for, não está ninguém. ninguém com quem estar.
fingindo-se noutro lugar, caminha por ali, reflectindo o círculo que nele se instalou. afinal de contas é aquele o seu lugar. sente-se a percorrer a cidade pela primeira vez. será que hoje é o dia? não tem fome, só a sede do encontro. anda sem parar, por vezes apressa o passo, quando vê uma esquina, quem sabe o que virá a seguir...
anoitece - a estrada negra leva-o até ao bar. o homem abre-lhe a porta em silêncio. entra e procura com o olhar a mesa do fundo, junto da janela, que sempre lhe deu a sensação de estar debruçada sobre o Tejo. as duas cadeiras sempre ocupadas estão à sua espera, ambas vazias. o homem do bar regista o pedido antes que diga alguma coisa. as palavras já não fazem sentido, estão gastas. senta-se e espera pelo seu habitual martini.
era um prazer encontrar a sua solidão, quando sabia poder contrariá-la. o que é imposto é habitualmente sentido como obrigação e gosta-se de se ser livre. agora a solidão personaliza-se na angústia.
o gelo vai-se consumindo. o sabor agradável da bebida fica agora misturado com o da bebida final-de-copo. até isso lhe sabe mal. lembra-se de ontem. ontem? talvez anteontem, ou talvez antes ainda. esse sabor...era sabor de palavras que lhe ocupavam o tempo.

lembro-me de ti. de saírmos a correr por caminhos diferentes. as ruas estavam sempre cheias de ti. um de nós chegava primeiro e sempre se sentia aquele ambiente desconhecido, naquela que era a nossa casa. sorria-se. o homem do bar sorria também com o despropósito. falávamos até às tantas. às vezes pedíamos café. e voltávamos a casa por caminhos diferentes. ou voltávamos à rua por casas diferentes, já não me lembro bem.
um dia não estavas, quando cheguei. nunca mais chegaste. sobre a mesa, um copo de martini meio bebido.
depois não sei.


levanta-se de repente. não paga, mas o homem do bar também não parece importar-se. corre pelo caminho que ali lhe trouxe, irreflectidamente, na esperança dúbia de regressar ao passado. o silêncio parece sentir-se confortável e mantem-se inabalável, como se fosse dono e senhor do mundo. não deixa que se ouça o ruído insuportável de uma multidão que se aglomera e cresce infinitamente.
rapidamente é engolido. o barulho ensurdecedor não deixa ouvir o que tenta gritar à rua, numa última tentativa de voltar. de voltar a ter alguém com quem perder o sentido do tempo e das palavras, de voltar à liberdade de negar a solidão com um sorriso no rosto.

tanto tempo, contigo, tantas palavras...
só não me lembro de te ter dito “gosto de ti”.

quarta-feira, julho 12, 2006

holofote

dizem que crescemos à medida que os anos passam por nós. não é de todo mentira, não é de todo verdade. pensei hoje estar maior, não sei quanto tempo, quantos dias ou quantos anos. mas ninguém parece ter notado.

bebo-me o orgulho de um só trago e finjo acreditar que a maldade não existe. começo até a acreditar que é amor, esse modo de vida que me dói. acredito com a fé dos que acreditam em milagres, como se essa fosse a minha única esperança.
será que ouvem os meus soluços?
peço-vos pelo menos qualquer coisa. qualquer coisa em mim que vos faça sorrir. uma só que vos faça sentir que cresci. ou uma outra que vos faça pensar que sou único. que vos faça dizer – qualquer coisa.

já é tarde para o beijo de boa noite que nunca chegou. hoje já está distante. agora vivo o amanhã, sozinho. ocupo-me a reconhecer a perfeição dos meus defeitos e acaricio as minhas incapacidades. sorrio pela paz que respiro, e pelos cabelos brancos que me envolveram no momento certo e me mataram antes de vocês. choram a minha ausência e não me entristece. habituado a sobreviver com o peso que a desilusão carrega - que poderia eu fazer? nunca consegui encontrar o lugar onde guardavam o holofote – aquele que nos fazia fechar os olhos e viajar na ilusão de que nós próprios éramos a luz. talvez não me estivesse destinado, a mim.

a neve continua a embranquecer os meus cabelos. é tão doce, tão suave e tão fria, não me permite as saudades vossas, apenas entrever uma pequena luz,
que me conforta.

domingo, julho 09, 2006

margarida

porquê
roubar as minhas músicas?
dizer-me coisas bonitas?
pedir-me para ficar (contigo)?
beber-me o amargo do café?
falar-me de estrelas mortas?
querer o que penso do teu outro alguém?
se ao menos me oferecesses uma margarida...

sexta-feira, junho 30, 2006

ausência

tantas letras e tantas palavras que não se escreveram. sem mais nada e com tanto para dizer. um vazio que preenche um desenho de cansaço.
parecendo frio quando quente (um lugar seguro quando está destruído).
uma criança inocente e um gancho colorido de menina afirmando que a idade se perdeu pelo caminho.
uma lágrima a escorregar sabendo a qualquer coisa como a tristeza.
um olhar que se cruza e fica indeciso, perguntando-se para onde vai. perguntando-se porquê.
um riso estridente que não sabe dizer a verdade.

ausente sempre nesse silêncio que apaga, sem deixar rasto.

sábado, junho 10, 2006

me

i try to kill those ghosts inside of me
that voice you’ve spoke is yelling in my ears
(and i don´t believe in love fools)
i´d like to have those eyes you want to kiss______ wishing something
i wish i had that voice you want to hear_____________i believe in

(and i don´t belive in love fools)________________________ do you feel something
this feeling is so hard that i can´t breathe_________ wishing something
i wish you touch my hair when i´m asleep ________and i don' t know
(and i don´t belive in love fools)____________________________ tired of this
the words you wrote are putting me away___________ tired of that
i know that love was for somebody else______ I don´t know me myself and i

you and i know, you and i tried, you and i ran
leaving old stories far behind
and it feels good, and it´s so warm
having those eyes
playing with me myself and i

i try to kill those ghosts inside of me
the voice you´ve spoke is yelling in my ears______ and i don´t know
(and i don´t believe in love fools)
i´d like to have those eyes you want to kiss_____ wishing something
i wish i had that voice you want to hear_______________ i belive in
(and i don´t believe in love fools)____________________ i believe in me myself and i
_____________________________________________________me myself and i


you and i know, you and i tried, you and i ran
leaving old stories far behind
and it feels good, and it´s so warm
having those eyes
playing with me myself and i________________________tired of this
______________________________________tired of that

me myself and i - the gift

preso na música, fundido... a
perguntar porque nos obrigamos a pensar a simplicidade como patética...